Ao abdicar definitivamente do poder temporal, o líder dos budistas tibetanos poderá dedicar-se a "outros campos".
A notícia não foi inesperada: Dalai Lama, o líder dos tibetanos no exílio, está a preparar a reforma. Há algum tempo que corriam rumores de que a sua sucessão estaria a caminho. Mas ainda que se confirme que o mais carismático dos tibetanos irá mesmo sair de cena, o processo promete alongar-se.
Para já, o Nobel da Paz está bem activo e não apenas nas conferências que dá em todo o mundo. Os posts no Twitter caem a um ritmo intenso (claro que nunca haverá a certeza de ser o próprio a escrevê-los, mas...): "Paz de espírito é a base para um corpo são e uma mente sã", ou "Precisamos de fazer um esforço para desenvolver os nossos valores interiores". Também a página do Facebook está em frequente actualização. "Se tiveres paz de espírito, quando enfrentares problemas e dificuldades eles não vão perturbar a tua paz interior."
A passar à prática o que disse na semana passada durante uma entrevista na Índia - onde vive o Governo tibetano no exílio -, o Dalai Lama, com 75 anos, vai ter mais tempo não só para as redes sociais, como para "promover os valores humanos, a paz e a harmonia".
Nessa entrevista afirmou que tenciona falar sobre o assunto com os responsáveis do Governo nos próximos seis meses (o Parlamento será reunido em Março de 2011) e que uma decisão final poderá ser tomada "alguns meses depois".
"Para fazer uso de total democracia, senti ser melhor que eu não esteja envolvido e que me possa dedicar a outros campos, promoção de valores humanos e paz e harmonia", declarou. "Primeiro terei de discutir, de informar os membros do Parlamento tibetano."
Não foi a primeira vez que mencionou o seu desejo de deixar as funções governativas. "Há anos que o Dalai Lama fala em reformar-se das actividades políticas", salientou ao PÚBLICO o holandês Michael van Walt, seu assessor nas negociações com a China. "Ele acredita que isto ajudará a consolidar o processo de governação democrática, uma vez que o principal papel político passará a ser do primeiro-ministro eleito e ao Parlamento", adianta.
A liderança é escolhida em duas voltas. A primeira foi a 3 de Outubro, para eleger o sucessor do primeiro-ministro. No início do ano haverá uma nova ida às urnas. Há dois fortes candidatos para a chefia: Lobsang Sangay, investigador da Universidade de Harvard (o mais votado em Outubro), e Tenzin Namgyal Tethong, diplomata também a viver nos EUA. E há uma mulher, Dolma Gyari, vice-presidente do Parlamento em Dharamsala.
Aquele que for eleito "terá de assumir uma responsabilidade ainda maior pelas questões políticas, incluindo as negociações com a China", continua Michael van Walt. "Terá de ter o apoio da maioria dos tibetanos para conseguir manter a unidade no delinear de objectivos."
Pressão de Pequim
Mas o facto de os dois principais rivais terem sido formados nos EUA pode significar uma atitude de maior confronto com Pequim, escreveu o Asia Times Online.
Há duas semanas, o Dalai Lama afirmou que a questão da sucessão está a ocupar mais a China do que ele próprio. "Isto não é um problema sério para mim... O Governo chinês está mais preocupado." As autoridades de Pequim têm feito várias tentativas para o enfraquecer. Nomearam o seu próprio Pancha Lama - a segunda figura do budismo tibetano - apesar de haver já um escolhido.
Em resposta, apontaram analistas ao Los Angeles Times, o Dalai Lama tem tentado descentralizar a estrutura e tornar o movimento menos dependente de si e menos vulnerável à pressão chinesa. "Há bastante tempo que aconselha os tibetanos a cumprirem as suas responsabilidades como se ele não estivesse lá", comentou o porta-voz Tenzen Takhla. "Este não é um assunto para uma pessoa, mas para seis milhões."
Mas este é também o dossier mais potencialmente explosivo. "Acho que o Dalai Lama não conseguirá retirar-se por completo das decisões importantes, em especial em relação às negociações com a China", comenta Michael van Walt. "Esta é uma questão sobre a qual os tibetanos procurarão a sua orientação."
Há 51 anos, desde a sua fuga do Tibete depois da ocupação das forças chinesas, que o Dalai Lama (que se chama Tenzin Gyatso) chefia a comunidade exilada. Tem pedido maior autonomia religiosa e cultural para a região, mas Pequim denuncia intenções independentistas. A discussão sobre o estatuto do território pouco tem avançado.
"Enquanto o Dalai Lama for vivo, penso que não haverá grandes alterações na posição face à China", afirma o seu assessor. A opção da "via do meio" entre a independência e a total integração na China deverá continuar a ser seguida, diz. Mas "a longo prazo, se Pequim não der sinais de querer responder positivamente às propostas tibetanas (a autonomia verdadeira) então haverá uma hipótese de radicalização... E quando o Dalai Lama já não for vivo, as hipóteses de radicalização e até de violência são ainda mais reais".
Por isso, continua, o regime de Pequim está a ser "disparatado em não fazer um acordo enquanto o Dalai Lama ainda está ali para convencer os tibetanos. Será muito mais difícil chegar a um compromisso sem ele".
Tenzin Gyatso já disse que há a possibilidade de ser o último dos Dalai Lamas - a instituição tem sido útil há vários séculos, explicou, mas se a maioria dos seguidores achar que deve acabar, é o que acontecerá. "As coisas mudam."
